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Pesquisa traça perfil inédito do jovem brasileiro
O instituto de pesquisas Datafolha ouviu jovens brasileiros e traçou
suas características mais relevantes. O "maior sonho" dos jovens
ouvidos pelo Datafolha é "trabalhar/formar-se" numa profissão
(18%). Ter uma casa, terminar os estudos e fazer família são as outras
aspirações maiores. "Sucesso profissional/na carreira" ou apenas ter
um bom emprego (fixo, com carteira, numa boa empresa, com bom
salário) ocupa o segundo lugar dos maiores sonhos dos brasileiros
entre 16 e 25 anos, com 15% das respostas.
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Para 40% dos jovens,
o sonho maior é resolver uma ansiedade compreensível e convencional
para a idade e, provavelmente, não só para essa idade: cuidar da
vida, encontrar um lugar ao sol, ter um emprego decente e definir
sua identidade por meio do trabalho de que gosta. Estes
resultados mostram uma preocupação com a satisfação de necessidades
próprias mais imediatas. Vale ressaltar que os sonhos variam pouco
entre as classes de renda, educação ou região onde moram os
entrevistados. |
É em outra parte da pesquisa, na qual se registra a impressionante e
deprimente estatística sobre o desempenho escolar: 54% dos jovens já
repetiram o ano (dos que ainda estão no ensino fundamental, 76% já
foram reprovados). E os números são ainda piores para os rapazes - 63%
deles repetiram o ano ao menos uma vez, contra 46% das mulheres.
Quando
questionados sobre suas inquietações, em geral, as respostas da pesquisa
sugerem que os maiores
medos são a morte e violência:
60% dos jovens temem sair de casa; 30% do total e 49% dos mais ricos já
foram vítimas de assalto.
"Violência" é o terceiro maior medo, mas foi citado por apenas 13%. O
número impressiona mais porque quase um de cada três jovens diz já ter
sido assaltado. "Desemprego" é apontado como o maior temor de apenas 7%
dos jovens
Em comparação com a última década, insatisfação com aparência e peso
aumentou consideravelmente.
Há 11 anos, o Datafolha perguntou aos jovens brasileiros se eles se
sentiam felizes com a aparência e registrou que 82% estavam muito
satisfeitos com o que viam diante do espelho. A mesma pergunta foi feita
agora e o grupo dos que se consideram muito satisfeitos caiu 23 pontos
percentuais. Colocar os pés em uma balança pode ser um sacrifício
para metade dos jovens brasileiros. Foi esse o percentual de
entrevistados que disseram ao Datafolha que não estão satisfeitos com o
próprio peso.
Os pais já perceberam e reclamam. Os especialistas em comportamento
listam vários motivos para o fenômeno - desde falta de autoestima até
gosto por novidades. Mas agora é a vez de os próprios jovens admitirem:
"Somos consumistas mesmo!". 69% dos jovens admitem ser consumistas;
moda é importante para 70% deles.
Segundo os filhos, quase metade (43%) dos pais sabe que eles usam ou
já usaram drogas. Embora ilustrem o conhecimento dos pais sobre os
hábitos dos filhos, os resultados mostram duas formas diferentes de
reagir ao problema, ambas reprovadas pelos estudiosos. O comportamento
mais liberal é visto, de forma geral, como herança geracional da época
em que o proibido era proibir, achando que está tudo bem usar drogas.
Errado! Na outra ponta, o uso de testes de drogas aponta para uma
relação de ausência de diálogo e confiança entre pai e filho, segundo os
profissionais que fazem trabalhos de prevenção ao uso de drogas em
escolas e faculdades de São Paulo.
A relação entre jovens, bebida e trânsito é trágica: 1 em cada 5 já
dirigiu após beber. Entre os jovens com renda familiar mensal maior
do que dez salários mínimos - com mais chance de ter carro-, a relação
sobe para 2 em cada 5. Outro dado preocupante é que até jovens com 16 e
17 anos, impedidos pela lei de dirigir, admitiram ter pegado no volante
após beber. A prática foi admitida por 7% deles. Segundo dados do
Denatran de 2007, diariamente 12 motoristas menores de idade se
envolvem em acidentes com vítimas no Brasil.
A maioria dos jovens costuma beber: são 59%, sendo que 1 em cada 3 deu
os primeiros goles antes dos 15 anos.
Do ponto de vista psicológico, dois aspectos chamam a atenção nesta
pesquisa. Primeiro, uma mudança cultural em que as preocupações
coletivas (como a luta pelos direitos femininos, ou a luta pela
liberdade que marcaram as décadas passadas) deixam de ser prioridade
para a juventude, abrindo espaço para preocupações mais individuais.
Essa mudança está relacionada ao contexto de cada geração que vai
estimular comportamentos específicos (p.ex. viver o período da ditadura
e lutar por liberdade). O segundo aspecto aponta pra algumas omissões
destes jovens quando alguns assuntos polêmicos entram em jogo: aborto,
sexo e drogas. Muitas vezes os números obtidos indicam uma omissão da
realidade.
Augusto Amato
Neto é Psicólogo (CRP 06/80945) Esportivo da AEM e Mestrando em
Psicologia Experimental pela USP. E-mail:
augustoamato@hotmail.com |